Camila Cabello: o som do verão

22 abr 2018

A estrela latina faz seu debut num festival inglês na ilha de Wight esse ano, e oferece dicas de sobrevivência.

Camila Cabello se tornou uma estrela solo depois de sua participação no grupo Fifth Harmony.

Festivais não são glamurosos. Eles envolvem lama, galochas e ficar perambulando com a paisagem de lixo às 4 da manhã com a possibilidade de não encontrar a sua tenda, seu carro e seu juízo. Considere então a dificuldade de uma estrela estrangeira que não está disposta a ficar enlameada, vestir roupas contra a chuva e viver no caos.

“Eu fui ao Coachella uma vez”, disse Camila, falando sobre o festival no deserto da  Califórnia que tem tapetes na área VIP para garantir que nada grude nos pés das celebridades. “Mas é um pouco diferente do festival inglês, me disseram. Eu fiquei numa casa próxima com algum de meus amigos, então apesar de termos visto algumas performances eu confesso que não levei mochila, um agasalho ou repelente. No entanto, eu não quero ir num festival aqui no Reino Unido. Eu soube que eles são selvagens. E chuvosos.”

O desejo da Camila está prestes a se tornar realidade. A pequena México-Cubana-Americana de 21 anos, que se tornou famosa em 2012 com o grupo formado no X Factor americano, Fifth Harmony, antes de sair do grupo para se tornar uma estrela latina do pop com seu hit número 1 Havana, irá performar no festival da ilha de Wight em junho. E apesar de dizer que está ansiosa por ele, não estou completamente seguro o que está prestes a atingí-la.

“Deixe me ver… Eu posso estar preparada pra caminhar sobre lama se estiver com meus amigos,” ela disse. “Quando você está ouvindo uma linda música na chuva e todo mundo tá bem bagunçado, pode se tornar uma experiência de conexão. Você começa sofrendo e logo você não se importa mais. Isso une todo mundo.”

Cabello, que mora em Los Angeles, está geralmente em um vestido rendado no palco junto a dançarinos. Hoje ela está de folga em um moletom e jeans, mas ainda se parece com uma estrela. No entanto, ela diz que planeja participar o máximo do festival com todo mundo.

“Quero fazer meu set e depois checar vários outros. Vou usar uma peruca loira curta, um casaco de chuva e minhas botas Wellington, e seguirei andando.”

Antes de Cabello curtir disfarçada a banda Kasabian e The Killers, ela tem que mudar com as mudanças que a fama trouxe. Minha entrevista com ela, num clube privado em Mayfair, no centro de Londres, é adiada em uma hora mais ou menos por conta dos vários repórteres que tomam conta do seu honorário. A mãe de Cabello está fora do cômodo no qual nos conhecemos, junta com o pessoal que a gerencia, sua gravadora e um homem alto que com certeza é o guarda-costas dela. Não há dúvidas que ela é requisitada.

Acima da sua fama, que veio em maior parte depois de Havana e seu sedutivo charme, ela se tornou uma porta-voz para os jovens latinos nos Estados Unidos. Ela discursou no Grammys desse ano contra o plano do presidente Trump de acabar com o programa DACA. Como parte da introdução à banda U2, ela disse: “Esse país foi feito pelos dreamers, para os dreamers, que buscam viver o sonho americano… Tenho orgulho em ser uma imigrante Méxicana-Cubana, nascida em Havana… E tudo o que sei é que assim como sonhos, essas crianças não podem ser esquecidas e são dignas de luta.” Esse foi o momento no qual ela se tornou um modelo para a sua geração.

“Antes de subir ao palco do Grammys eu disse à mim mesma, ‘Isso não é sobre você. Isso é para as pessoas das quais está falando,'” disse ela sobre o discurso. “Eu estava bem nervosa, mas aí pensei, ‘Quem se importa com o que está sentindo? Isso é sobre fazer o amor  ser maior que o medo e sobre o que as pessoas que estão nessa situação estão passando.’ Logo eu não estava mais nervosa.”

No que diz respeito à atitude do Trump em relação aos imigrantes latinos, ela disse “É bem frustrante. Mas ao mesmo tempo é esperançoso isto está em nossa frente e não podemos ignorar os dreamers ou o controle do armamento. As pessoas estão começando a ter mais empatia com o próximo.”

Ela encolhe os ombros em algo parecido com esperança. Ou pode ser apenas cansaço.

Você pode pensar que isso é bastante para uma pessoa de apenas 21 anos. “Na verdade eu sou extremamente tímida,” disse Camila. “Eu sempre fui introvertida. Tem uma foto do meu aniversário de 9 anos na qual as pessoas estão cantando parabéns pra mim e estou com os olhos cheios de lágrimas porque eu fico emocionada quando tem muita atenção em mim. Isso aconteceu novamente hoje de manhã. Eu estava sendo filmada para uma entrevista e tinhas pessoas da equipe de cabelo e maquiagem no lugar, e eu paralizei. Você tem que parar, bloquear tudo ao seu redor e focar no trabalho.”

Porque, então, ela escolheu uma vida na qual ela precisa passar muito tempo falando e performando para “estranhos”? “Quando você ama algo o suficiente você passa por cima dos seus medos, e quando estou performando… Não consigo explicar. Eu me perco na música e do nada eu não sou eu mesma, eu sou um veículo para qualquer que seja a emoção que eu esteja cantando sobre. Eu me sinto exposta, mas não tão exposta, se isso fizer sentido. Se estou cantando, estou bem. Se ganho um prêmio meu primeiro pensamento é. ‘Ah meu Deus, agora eu tenho que subir lá e falar.’ ”

Cabello, nascida em Havana com uma mãe cubana e um pai mexicano, passou os primeiros cinco anos de sua vida viajando entre os países de seus pais enquanto a sua mãe estudava arquitetura na Cidade do México. Depois a família se fixou em Miami onde, Camila relata “Miami me deu oportunidades melhores, educação melhor, uma casa melhor que meus pais tiveram”. Ela cresceu escutando Michael Jackson e música latina e, depois que sua família contratou TV a cabo, assistiu à High School Musical, The Cheetah Girls e outras versões recentes da cultura pop no Disney Channel.

“Quando você tem nove anos, todos querem ser cantores,” ela diz, descartando a ideia de ter um caminho no meio pop até então. “Todo mundo está colocando fotos de shows de talento em seus quartos. Foi com isso que meus amigos cresceram mas eu não.”

Ela convenceu seus pais a não ter uma festa de debutante – a tradicional comemoração latina para um aniversário de 15 anos de uma garota – e em troca pediu para ser levada às audições da versão americana do The X Factor na Carolina do Norte. “Eu acho que eles pensaram, ‘Essa é uma boa forma de saber se ela pode fazer isso, e com sorte ela se esqueça dessa ideia.’ ” relata Camila. “A experiência no X Factor me ajudou a lidar melhor quando sob pressão, porque você não pode correr. Se não está se sentindo bem naquele dia você ainda precisa estar na TV, performando pro país todo. E não se pode ser ruim ou será mandada pra casa.”

A escola deu lugar para o estudo em casa por conta da vida decorrente do show de talentos. “É muito difícil estudar geometria quando você não sabe a letra de uma música que cantará no dia seguinte,”. “Mas eu consegui meu diploma do ensino médio e aprendi, desde cedo, a não prestar atenção ao que os outros estão dizendo. Aos 15 você lê comentários e pensa, ‘Ai meu Deus, essa garotinha diz que é minha fã.’ Você fica em êxtase. Logo depois você lê, ‘Bem eu não acho que ela é tão bem assim,’ e ‘Ela é horrível,’ você fica insegura e isso estraga tudo. Eu ainda me lembro apenas dos comentários negativos, nunca dos positivos. Não tenho nenhuma rede social no meu telefone. Foi a melhor decisão que já tomei.”

Ela não pode fazer muito quanto aos telefones de outras pessoas. Cabello diz que a parte mais árdua da fama é ter pessoas enfiando câmeras na cara dela ao invés de conversar com ela. “Isso acontece com pessoas que estão animada por estarem com um famoso,”. “Fãs que amam e se importam comigo demostram muito afeto. Não me sinto sugada quando falo com eles. Sou sugada quando pessoas que nem conheço estão me puxando.”

Ela ainda tem que lidar com os paparazzi, um recentemente a fotografou com um suposto namorado, o experiente em relacionamento e britânico Matthew Hussey.

No mundo dos shows de talento, a saída de Camila do grupo Fifth Harmony gerou controvérsias. Tensões subiram quando ela fez uma colaboração com Shawn Mendes em 2015 e, depois de pedidos para auxiliar na escrita de músicas serem negados, ela percebeu que não seria possível escrever seu próprio material e continuar no grupo. Ela saiu em dezembro de 2016 e, depois do sucesso de Havana, lançou seu primeiro álbum solo, Camila, em janeiro deste ano. Que conseguiu o número 1 no chart da Billboard.

“Houveram momentos lindos,” disse Camila, sobre os cinco anos que passou em uma girlband. “Estar com quatro outras garotas a faz melhor porque há uma competição saudável. Você não quer ser a pior do grupo.”

Camila é, para uma mulher crescida em shows de talento, estranhamente pessoal e reflexiva, muitas vezes escolhendo baladas mais lentas à hinos que se tocam na boate. Há canções de amor feitas por ela, mas a maior parte do álbum é sobre ver uma joven mulher latina nos Estados Unidos do século XXI. Não é edge, ou sexy demais, mas na verdade doce. “Eu sou apenas uma bolinha pegajosa,” falou Camila.

Bem, ela será uma dia depois do festival na Ilha de Wight.

Camila Cabello estará na O2 Academy Glasgow, em 5 de junho; O2 Academy Birmingham, em 6 de junho; O2 Academy Brixton, em 12 de junho; e no festival da ilha de Wight entre 21 e 24 de junho.

Tradução e adaptação: Camila Cabello Brasil.

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